sábado, 12 de janeiro de 2013

O Diabo na Garrafa - 1º Parte

Existem verdades que é melhor não conhecermos.A historia que vou lhes contar fala de uma realidade que veio até mim sem eu desejar.Se você tiver coração fraco, pare de ler aqui.Seja um ignorante nesses assuntos que irei relatar e continue feliz.Se você continuar a ler, não me culpe por nada.



Antes de começar contar os sinistros que aconteceram comigo, vou me apresentar e também apresentar os motivos que me levaram a ter contato com “ a coisa”. Me chamo Claudio P. Santana,tenho 38 anos, moro sozinho e  sou professor na UFMMG.Tenho mestrado em historia e formação em arqueologia.Nasci em Sete Lagoas mas hoje moro em Belo Horizonte.
A algum tempo, meus colegas e eu estamos tentando criar um pequeno museu do folclore brasileiro aqui no campus da universidade e por isso estamos a procura de objetos que de certa formar contam parte da cultura da região.Eu tive então a ideia de conseguir pro museu um capetinha na garrafa.Ao contrario do que muitas pessoas pensam, isto existe realmente.Antigamente alguns fazendeiros os usavam como uma espécie de patuá macabro,eram feitos de barro,resina ou mesmo madeira.Este costume foi retratado nas novelas Renascer e Paraíso.
Como eu queria exibir em um museu, estava determinado a conseguir um exemplar bem antigo, se possível do Brasil colônia.Busquei em toda região central de Minas por um exemplar antigo, mais depois de meses procurando havia encontrado apenas oito exemplares autênticos e o mais antigo datava da década de cinquenta.
Em uma tarde, quando voltava da região de Pindaibas, um povoado da cidade de Jequitiba, eu parei no Bar 1º de Maio para lanchar.Entrou um senhor carregando algo embrulhado em  jornal.Foi até o balcão e conversou com o balconista e depois veio até mim.Ele aparentava uns quarenta anos e vestia camisa de botão, calça caqui, botinas e um chapéu de couro gasto.
- Boa tarde. - disse ele - O  senhor que é o professor?
-Boa tarde.sim sou Claudio, professor.Prazer.
-Ouvi dizer que o sinhor está procurando um capetinha na garrafa, é verdade?
-É verdade.Busco um para um museu de folclore.
O sujeito então tirou os papeis do embrulho e  me mostrou a garrafa que trazia.
-Este aqui é pro senhor.
-Desculpe, mas este não me serve.-Disse eu.-Procuro um que seja antigo e este não é.
A figura que o homem me mostrou não me despertou interesse pois parecia ser muito moderna, feita de resina plástica ou chumbo.Decerto ele devia ter comprado uma miniatura da china e colocado naquela garrafa recentemente.
-Mas este é muito velho.Foi meu bisavô que adquiriu.
Como eu não queria prolongar aquela discussão, tirei uma nota de cinquenta reais do bolso e estendi para o homem.
-Tome,é tudo que posso oferecer por ele.
-De maneira nenhuma!Estas coisas não se podem vender.É um presente meu pro sinhor.Aceite.Mas tome cuidado, nunca abra a garrafa.
Ele me entregou então o embrulho e se recusou de todas as maneiras a receber algo em troca.Depois que eu pequei a garrafa ele se apressou em sair do bar.Ainda tive tempo de gritar para ele:
-Ei, qual é o seu nome?
-É Zé da Onça.Passar bem. - E se foi caminhando apressado do bar.
Eu enfiei a garrafa na minha mochila determinado a descartá-la assim que possível, pois de nada me interessava aquele falsificação barata.
O tempo passou e eu voltei pra BH.Coloquei em exposição o exemplar da década de cinquenta e me esqueci completamente do que estava em minha mochila.Um dia, quando estava assistindo tv em minha casa a noite, começando a cochilar, tenho a impressão que vi minha mochila se mexer.Após despertar, me convenci que aquilo tinha sido apenas um sonho.Mas o fato me lembrou da garrafa ali dentro.Então eu a tirei da mochila para joga-la no lixo.Foi quando eu me dei  conta de um detalhe intrigante, que havia deixado passar no dia do bar, pois estava concentrado apenas na miniatura: a garrafa era uma garrafa artesanal, provavelmente muito antiga.Não havia inscrições de nenhuma fabrica ou coisa assim e o vidro era de excelente qualidade.A garrafa também era fechada com uma rolha de cortiça com uma marca que parecia ser um tridente estilizado.Parecia ser bem velha, lacrada com algo que parecia ser cera de abelha misturada com alguma outra coisa.Também havia mofo se formando por dentro da garrafa, próximo a rolha.
Tudo isso não combinava em nada com a miniatura, que parecia ser muito moderna em comparação com a garrafa.Eu tenho o costume de colecionar miniaturas de RPG e aquela parecia muito com uma destas miniaturas.A tinta usada e a tecnologia a tornava muito real.Claro que eu já tinha encontrado falsificações que simulavam antiguidades, muitas delas difíceis de distinguir de um objeto realmente antigo mas, por quê o sujeito iria ter o trabalho de falsificar uma garrafa antiga e me dar o objeto de graça e ainda por cima colocar dentro uma miniatura moderna?
Levei a garrafa até meu escritório e a coloquei sob a luz de uma luminária.Pequei uma lupa e comecei a examinar o objeto com curiosidade.Examinei o fundo buscando o local onde o vidro da garrafa deveria estar emendado, mas não achei nenhuma marca e então fiquei imaginando se o artesão havia feito realmente a miniatura dentro da garrafa.Se este fosse o caso, esta peça se tornaria ainda mais cara e valiosa.Depois comecei a examinar a figura dentro da garrafa e me surpreendi com a qualidade do trabalho.Havia detalhes demais naquela miniatura, e a tinta usada era de excelente qualidade.Muito melhor do que qualquer miniatura de minha coleção.Era possível ver cada dedo e unha e até as escamas uma por uma.Foi usada até texturas para parecer pele de verdade.Se eu não fosse um homem cético, diria até que se tratava de uma criatura de verdade.Deixei a garrafa ali e fui dormir.
Naquela noite começaram os pesadelos.Sonhos perturbadores com fazendas antigas e casas em chamas.Rituais sob árvores gigantes e criaturas das sombras.Acordei suado diversas vezes na noite.
No dia seguinte estava decidido a analisar melhor aquela miniatura.Ver do que era feita.Decidi então abrir a garrafa serrando o fundo, assim poderia emenda-lo depois e não destruiria o selo antigo que fechava a rolha.Usando uma serra especial, abri o fundo e tirei o diabinho.Naquele momento senti um cheiro forte de enxofre e pela primeira vez comecei a ficar com medo daquela peça.Mas meu lado racional falou mais alto.A miniatura tinha mais ou menos uns dez centímetros de altura e não possuía base.Decidi fazer uma pequena raspagem em uma lamina para analisar o material no laboratório da universidade.Antes de sair, guardei o diabinho na gaveta de minha escrivaninha.
Quando analisei as amostras no laboratório tive outro susto.Aquilo não era tinta.Não sabia dizer o que era mais, se assemelhava a queratina, segundo um amigo meu, professor de biologia.O dia demorou a passar, eu fiquei tão nervoso que tive alucinações durante as aulas.Eu via sombras se movendo no fundo da sala e coisas negras voando no céu pela janela.
Ao chegar em minha casa, fui direto abrir a gaveta e o diabinho não estava lá mais.Procurei por todos os lados mais não o encontrei.Como me arrependi de não ter seguido o conselho de não abrir a garrafa.
Naquela noite começou meu sofrimento.Ouvia coisas mexendo na cozinha e andando pela sala.Mesmo um homem adulto como sou, não tive coragem de apagar a luz e dormi com o o quarto trancado.Os poucos minutos que consegui fechar os olhos, sonhei com criaturas medonhas e morte.
De manha tomei um café reforçado e decidi procurar de novo na gaveta.Talvez tudo aquilo tivesse sido um delírio e a miniatura ainda estivesse lá.Não encontrei o diabinho mas encontrei algo pior.Um par de brincos de ouro, sujos de sangue.Como estudioso de folclore, me lembrei da lenda de que o diabinho na garrafa roubava ouro e trazia para o seu dono.Peguei aqueles brincos usando uma luva e os coloquei em uma sacola.No caminho para a universidade, joguei-os em uma lixeira.
    Os dias que se seguiram foram uma tortura sem fim.Não conseguia dormir direito com os barulhos em minha casa e quando dormia tinha pesadelos horríveis e paralisia do sono.Em sala de aula, via sombras malignas se mexerem entre os alunos.E no final da semana encontrei um dente de ouro ensanguentado na gaveta onde havia deixado o diabinho.
Cheguei pedir um padre para benzer minha casa e por uns dias parecia ter melhorado, mas com o tempo tudo voltou.Foi ai que decidi voltar a procurar o Zé da Onça em Jequitibá para me ajudar.Hoje retornei até o bar onde ele me encontrou e perguntei por ele ao balconista e ele me orientou a procurar na localidade de Onça, distrito de Jequitibá.






2 comentários:

Anônimo disse...

Sou de Jequitibá, e o final da historia ?

Narrador disse...

O final já está disponível.Segue o link: http://onecromante.blogspot.com.br/2013/01/o-diabo-na-garraffa-parte-final.html . Obrigado por sua atenção.

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